Entrevista
Enfermeiro José Carlos
Enfermeiro Especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica Professor Adjunto na Escola Superior de Enfermagem de Coimbra Unidade Científico-Pedaógica de Enfermagem Médico-Cirúrgica
Qual a prática multidisciplinar no acompanhamento da doença oncológica?
O cancro é uma doença crónica, sistémica, que afeta a pessoa nas suas múltiplas dimensões, física, social, psicológica, espiritual... Assim, a melhor resposta é aquela que é global, holística, indo não apenas ao encontro da doença propriamente dita, mas procurando responder às várias necessidades de cada pessoa. Cada vez mais é fundamental uma prática multidiscilinar, em que o resultado do trabalho de equipa é sempre muito superior à soma dos resultados individuais. É uma ilusão pensar-se que, para o tratamento do cancro, é necessário apenas um grupo de profissionais. Se queremos uma abordagem verdadeiramente holística, todos os grupos profissionais da saúde são importantes, igualmente importantes.
Qual o papel do enfermeiro no processo?
A enfermagem é um destes grupos profissionais que tem um papel central no acompanhamento da pessoa com doença oncológica. Pela sua formação, está preparado para ajudar cada pessoa nos vários processos de transição ao longo da doença. Seja como generalista, especialmente centrado na ajuda à independência, fazendo pela pessoa ou com a pessoa sempre que esta, por falta de conhecimentos, de força ou de vontade, não é capaz de fazer sozinha. Ou seja como especialista, nas várias áreas de intervenção ao longo do processo de doença, como por exemplo quando em situação crítica, a necessitar de cuidados de reabilitação, quando em cuidados paliativos ou quando são necessários cuidados especializados de saúde mental ou dirigidos à família ou aos vários níveis de prevenção da doença.
Como é que o paciente costuma reagir ao descobrir a doença e como deve viver o seu quotidiano?
A notícia de uma doença grave provoca sempre um forte impacto na pessoa e na sua família. É inevitável, pois a palavra cancro tem ainda uma conotação associada a doença incurável, a dependência, a dor e mesmo a morte. Existem várias fases neste processo que incluem a incredulidade, a revolta, e a aceitação, entre outras. E vários fatores podem influenciar a forma como a pessoa passa por cada uma destas fases, como experiências anteriores, o conhecimento/informação que possui, o apoio do núcleo familiar, ... O importante é que a informação seja transmitida ao doente com veracidade, respondendo às suas questões e incluindo neste processo os elementos da família que o doente julgar pertinentes. Só uma informação completa e verdadeira permite ao doente mobilizar as forças necessárias a melhor enfrentar a doença e exercer a sua autonomia. Pactos de silêncio, mentiras e meias-verdades apenas servem para prolongar o sofrimento, aumentar a ansiedade e depressão, reduzir a qualidade de vida e a satisfação com os cuidados recebidos dos profissionais. E, na verdade, para uma grande parte dos cancros é hoje possível a cura ou a sua estabilização por longos períodos. Por isso, é necessário acreditar. Acreditar que é possível ultrapassar a doença, acreditar que é possível viver com qualidade mesmo após um tratamento mutilante, acreditar que é possível um controlo eficaz de vários sintomas, como a dor, acreditar que podemos continuar a ser produtivos como antes, ... Acreditar, manter a esperança, otimiza o nosso sistema imunitário e ajuda a recuperar da doença.
Onde é possível obter mais informações, sobre o cancro?
Nos dias de hoje, na era global, é possível aceder a informações sobre o cancro nos mais variados locais. E esse é um problema, principalmente porque muita da informação que se encontra (em várias revistas e sítios da internet) é inadequada, errada ou está desatualizada. Um princípio importante é sempre verificar se a fonte da informação é de confiança. E, seja qual for a fonte da informação, internet, de uma revista, que se ouviu de um vizinho ou na televisão, o que se deve fazer é discutir essa informação com os profissionais de saúde, sem medos e sem reservas. O médico assistente, o enfermeiro e o farmacêutico deverão ser elementos chave nesse processo.

